domingo, 2 de março de 2008

Dra, acha que os gatos são felizes?

Bom, há 15 dias que não falamos. Essa conversa é um pouco estranha para mim. O que andou a ler?

Nada. Tive tempo para pensar.

Aaaaaah

Sei que não é uma ideia nova, mas às vezes gostava de ser gato. Ou cão, ou outro bicho qualquer.

Porquê?

Porque gostava de apenas sentir. De desfrutar do sol a entrar na janela sem pensar nisso ao mesmo tempo.

Mas não desfrutaria. O gato não conhece a palavra desfrutar. Não tem esse conceito.

Está-me a dizer que ele não é feliz nesse momento?! Com aquele ar que ele põe quando se põe ao sol, não é feliz?!

Hummm...será. Mas não sabe que é. De que lhe serviria isso a si?

É que estou farta das palavras.

Compreendo.

Acha que é possível amar alguém sem palavras? Quer dizer, não é só sem as dizer. É sem as pensar.

Francamente, acho que não. Para quando marcamos a próxima conversa?

12 comentários:

joana pais de brito disse...

(pequeno preâmbulo...toda a gente, toda a gente quer a vida que um gato tem)

acho que os gatos são felizes, mesmo sem saberem o que é isso de se Ser Feliz.

Também quero ser gato e ficar ao sol e não entender nada. De nada. E ainda por cima receber festas.

Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva disse...

Míscaro: A Mariana no sofá?

joana pais de brito disse...

Somos todos às vezes, Marianas no sofá.

Anónimo disse...

Blogs cruzados...gostei da ideia!
Confesso que demorei um pouco a atingir. Mas é engraçado, os textos têm mesmo algo em comum.

Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva disse...

Quando eu tinha 2 ou 3 anos perguntei aos meus pais se eu era gato. Na verdade, se era um certo gato que eu conhecia.

Disseram-me que sim, que eu era gato, e andei satisfeito um tempo...

joana pais de brito disse...

Curioso...Ao meu pai aconteceu o mesmo, mas com uma certa pintura de um pato.

A minha avó anuiu; sim és aquele pato. O que o deixou bastante transtornado.

Talves se antes fosse um desenho de um gato, tudo seria diferente...hipótese.

Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva disse...

É melhor ser gato do que desenho de gato.

Nada substitui um gato vivo, o pelo, o rom rom, os bigodes e roçar, as patas a 'mamar' quando estão ao nosso colo e o nariz deles a tocar no nosso.

E, nos gatos realmente domesticados, o afecto puro, maior do que o de um cão, por nós.

Não conheço, nos animais, nada tão comovente como o afecto de uma gata de três cores ('tartaruga')

Mas estou a fugir algum tanto ao tema.

É só porque adoro gatos.

Anónimo disse...

Engraçado, todos os comentários se debruçam sobre a parte do gato.

Que pensam da última, aquela de amar sem palavras? Ou posto de uma forma que talvez vos entusiasme mais: acham que os gatos "amam"?

Também já me disseram que eu era gata (não quero ser diferente do rodrigo e do pai do/da miscaro...). Levei a sério na altura, foi uma boa sensação. Pela descrição do rodrigo, assumi mesmo que tinha três cores. Depois acho que me fui transformando em animais vários, e pensando bem, até vegetais. E agora sou isto.

Bom, ironias à parte (mas verdadeiras as afirmações), gostava de ter a vossa opinião sobre a segunda parte do meu post.

Beijinhos...

joana pais de brito disse...

Gata:

acho que sim...em certos estadios de uma relação, acho que é possível. Em certas zonas de confiança. Assim, bolsas de ar, que depois desaparecem. E voltam a aparecer, se tudo correr bem.
Resumindo, Dra, acho que é possível, mas somos Palavra sempre, de condição, o que não quer dizer que seja mau. É assim e pronto. Ao contrário do Gato. Em príncipio.



(eu digo-te o agora sou isto...)

Anónimo disse...

Acho que se ama sempre sem palavras. Ama-se quando se ama.

Ama-se um sorriso, o tom de uma voz, um gesto.

Ama-se quando se quer tocar o outro, beijar a testa, fazer uma festa no cabelo.

As palavras servem para dizer coisas sobre coisas. Por exemplo, 'este computador é branco'; ou 'gosto desta maçã'. Ou 'a maçã está em cima do prato que está ao lado do microondas'.

Pode-se amar uma pessoa que nos diz coisas que nos comovem (como no Cyrano), mas apenas porque essas palavras têm uma função poética que desencadeia em nós emoções que passamos a associar à pessoa que no-las desencadeia.

Mas o sentir do amor nunca tem palavras. Para pôr a coisa em termos de gatos, claro que os gatos amam e é por isso que é tão comovente. Amam sem reserva, porque não se lembram das palavras e porque não têm um eu a defender (também por palavras).

Gostava de concordar com a Míscaro, que somos assim (quer dizer, que somos pela palavra) e não é mau.

Que somos assim concordo, claro: basta dizermos 'Eu' para já não sermos gato ou gata.

Mas que é bom, não sei. Os momentos mais belos que já passei não tinham palavras. Olhar para uma paisagem e sentir-me desaparecer perante ela; sentir uma pessoa (um bicho) aninhado em mim e eu nela; ouvir um som que me preenche completamente até eu deixar de sentir.

Claro que isto não funciona com as relações. Não podemos deixar de ser em nós para sermos apenas no outro, até porque, geralmente, o outro se aproveita disso para ser mais nele (Il y a un qui aime et l'autre qui se laisse aimer).

É por isso que o amor é uma ilusão romântica. É possível gostar de alguém, viver com alguém e gostar de estar sempre com alguém. Quando isso é recíproco, tudo bem.

Mas ser sempre a dois (o tal 1+1=1) só me parece possível em certos momentos.

Pouco clara, parece-me, esta resposta. Portanto: ama-se sempre sem palavras, gosta-se por vezes com palavras.

Anónimo disse...

Isso quer dizer que, uma vez que somos palavra, não podemos amar como um gato ama? Porque quando julgamos amar, já estamos a pensar sobre isso...com palavras...

Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva disse...

Salvo melhor opinião... será mesmo isso.