Estou aqui! Não me vês?!
De que cor é o teu cabelo?
Castanho. Não me vês?! Aqui! Estou a acenar! Tenho a certeza que és tu, do outro lado da alameda.
E os teus olhos, de que cor são?
Castanhos. Não me vês?! João! Como é possível?!
E o nariz, como é o teu nariz?
Não sei definir narizes, Ana, muito menos o meu. Vou levantar agora o meu pé esquerdo. Viste? Caramba Raul, sou eu!
Não vejo. Podes ser mais explícita na tua identificação? Já pensaste que todos estes problemas podem ser fruto disso? Como podes esperar que saiba quem és?
Mas…mas nós combinámos, António. Combinámos que quando nos encontrássemos saberíamos. Desconfio agora que não sejas tu, não é possível afirmares algo com tanta veemência, e de repente mudares de ideias quanto ao meu reconhecimento. Se há coisa que parece ser importante é a confiança do reconhecimento.
Bom Maria, passou-se tempo, e eu li entretanto tantos livros. Foram muitas personagens, e de todas fui pondo um bocadinho em ti. E depois, o conjunto dos sítios não deu a alameda da universidade, foi no jardim do príncipe real que te construí em mim.
A alameda tem relva. Compreende, nem tudo poderá corresponder à história. Há que ser flexível. E sou eu, querido. Não poderia ser outra pessoa a levantar assim o pé esquerdo, e a gritar João! com esta transparência na voz. E a sair do autocarro num repente apenas porque te vi. Como podes duvidar? Tu, que sempre me disseste que esta impulsividade era tão característica. Mas está este trânsito descomunal, que me impõe esta dificuldade e não me deixa ver-te ao perto. Parece que esta também constitui uma das grandes formas narrativas, uma perturbação repentina, a personagem lutadora que vai ultrapassando os vários obstáculos, até que tudo acaba em bem. Na verdade a estrutura dos filmes anda a mudar. Como não havia a nossa de mudar também, mais cedo ou mais tarde?
Bem sabes que demorará. É um processo, meu bem. Não mudamos de filme de um momento para o outro. Ou quem sabe de um momento para o outro, mas depois de vários bocadinhos de nós terem começado a gritar do outro lado da alameda. Coitados dos nossos bocadinhos, roucos que eles estão, e eu aqui a escrever a tese e a mandá-los calar, porque só consigo trabalhar em silêncio. Talvez por isso ande a sentir-me tão culpada. Vão-me dizendo subliminarmente que sentem a minha falta ali no sofá, e que a sra. dos tempos livres passa mais tempo com eles do que eu. Qualquer dia jantam lá, dizem-me. Estão tão crescidos, Maria, havias de vê-los, são umas crianças adultas. É um paradoxo isto de só se ouvir as crianças quando elas já são adultas. A história é outra, e no entanto terá de ser a mesma. És tu pois, do outro lado da alameda. A mesma. Minha menina. Desculpa. A história da alameda. É que as árvores do jardim do príncipe real. Menina. O teu pé esquerdo. Menina minha. As árvores do príncipe. Desculpa. O jardim das árvores do outro lado do real. Quase não me deixaram ver o teu pé esquerdo a levantar-se.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Os olhos da Rosa
Bom dia Dra.
Bom dia Rosa. Sente-se. Que se passa? Pareceu-me que tudo andava tranquilo.
E anda. Mas ontem quando acordei, achei que estava a ver mal. Fomos então ao oftalmologista.
Fomos? A quem se refere? E o que lhe aconteceu?
Fui com a Rosa. Porque foi ela que me deu a indicação de que algo não estaria bem.
A Rosa?
Disse-me ela, assim que acordei, que algo de estranho se passava. Que não era eu. Comecei por dizer-lhe que seria talvez por ser cedo, e não é meu costume fazer-me ver com o sol em determinada posição. Sabe como o contexto influencia, ainda mais a posição do sol. Mas ela disse-me que não, porque até a cor dos meus olhos tinha mudado.
O que se passou na noite anterior? A Rosa sentiu algo de diferente?
Ela sentiu. Mas não conseguia nomear, além da diferença nos meus olhos. Implorou-me para que voltasse, que me deixaria ser o que eu quisesse, que nunca mais me faria uma fita. Chorava como uma criança. Que não conseguiria olhar para mim com outros olhos.
Quais?
Os meus. E os dela, bem sabe que depende dos quatro. E, na verdade, enquanto a Rosa me falava dos olhos, senti-me absolutamente triste, embora tranquila. Ela não notava, mas começou a ficar com uma cor de pele esquisita, e a cabeça dela aumentou. Ficou parecida com um feto com seis meses de gestação.
O que lhe disse?
Acalmei-a, claro. Que não mudaria nunca. Mas enganei-a, Dra. Não podemos mudar de olhos e dizermo-nos os mesmos. E também não lhe falei da cabeça a aumentar, e da sua meninice que brotava, com todas aquelas lágrimas grossas, ainda que tudo isso me enchesse de ternura. Até porque, pensei, seria a nova cor dos meus olhos a responsável, e não seria justo inquietá-la por algo sobre o qual não teria qualquer poder. Já bastava a minha mudança. Corri para o espelho, e ela sempre comigo, e os nossos quatro olhos fitavam-nos do lado de lá, o que no conjunto dá oito olhos, todos a olharem uns para os outros. Era demasiada gente a dar a sua opinião sobre uma coisa que, algo me dizia naquele momento, seria simples, pequeno, apaixonadamente reduzido, apesar de todo aquele estardalhaço. A Rosa pôs-se então aos gritos, esses já de mulher e na fase de raiva, que julgo que é a seguinte. Que não era possível, como podia enganá-la assim, e ter-lhe escondido uma coisa destas. Haveria pior traição? E eu dizia as balelas de sempre. Que não, que os outros olhos sempre tinham sido dela, inteiramente dela. Olhei-a então, a agarrá-la com os novos olhos, como quando apertamos algo com força na esperança de que não se evapore.
E ela?
Ela disse-me, através dos oito olhos que nos viam, que lhe desse uns minutos, para se despedir. E se a seguir ia com ela ao oftalmologista. Parecia-lhe andar a ver mal.
Bom dia Rosa. Sente-se. Que se passa? Pareceu-me que tudo andava tranquilo.
E anda. Mas ontem quando acordei, achei que estava a ver mal. Fomos então ao oftalmologista.
Fomos? A quem se refere? E o que lhe aconteceu?
Fui com a Rosa. Porque foi ela que me deu a indicação de que algo não estaria bem.
A Rosa?
Disse-me ela, assim que acordei, que algo de estranho se passava. Que não era eu. Comecei por dizer-lhe que seria talvez por ser cedo, e não é meu costume fazer-me ver com o sol em determinada posição. Sabe como o contexto influencia, ainda mais a posição do sol. Mas ela disse-me que não, porque até a cor dos meus olhos tinha mudado.
O que se passou na noite anterior? A Rosa sentiu algo de diferente?
Ela sentiu. Mas não conseguia nomear, além da diferença nos meus olhos. Implorou-me para que voltasse, que me deixaria ser o que eu quisesse, que nunca mais me faria uma fita. Chorava como uma criança. Que não conseguiria olhar para mim com outros olhos.
Quais?
Os meus. E os dela, bem sabe que depende dos quatro. E, na verdade, enquanto a Rosa me falava dos olhos, senti-me absolutamente triste, embora tranquila. Ela não notava, mas começou a ficar com uma cor de pele esquisita, e a cabeça dela aumentou. Ficou parecida com um feto com seis meses de gestação.
O que lhe disse?
Acalmei-a, claro. Que não mudaria nunca. Mas enganei-a, Dra. Não podemos mudar de olhos e dizermo-nos os mesmos. E também não lhe falei da cabeça a aumentar, e da sua meninice que brotava, com todas aquelas lágrimas grossas, ainda que tudo isso me enchesse de ternura. Até porque, pensei, seria a nova cor dos meus olhos a responsável, e não seria justo inquietá-la por algo sobre o qual não teria qualquer poder. Já bastava a minha mudança. Corri para o espelho, e ela sempre comigo, e os nossos quatro olhos fitavam-nos do lado de lá, o que no conjunto dá oito olhos, todos a olharem uns para os outros. Era demasiada gente a dar a sua opinião sobre uma coisa que, algo me dizia naquele momento, seria simples, pequeno, apaixonadamente reduzido, apesar de todo aquele estardalhaço. A Rosa pôs-se então aos gritos, esses já de mulher e na fase de raiva, que julgo que é a seguinte. Que não era possível, como podia enganá-la assim, e ter-lhe escondido uma coisa destas. Haveria pior traição? E eu dizia as balelas de sempre. Que não, que os outros olhos sempre tinham sido dela, inteiramente dela. Olhei-a então, a agarrá-la com os novos olhos, como quando apertamos algo com força na esperança de que não se evapore.
E ela?
Ela disse-me, através dos oito olhos que nos viam, que lhe desse uns minutos, para se despedir. E se a seguir ia com ela ao oftalmologista. Parecia-lhe andar a ver mal.
sábado, 9 de maio de 2009
Há aqui rãs (clique aqui)
Porque achas que a descrição tranquiliza?
Não sei. Talvez por associares directamente uma realidade a um texto. Por achares que compreendes, ou mesmo que sabes.
Estou tão cansada hoje, que preciso de descrições. Que inveja tenho daquele bebé. É tudo ainda para ser, e não falo apenas na possibilidade de ser futebolista, ou gestor, ou bailarino, ou cantor, ou. Falo de ser. Descrevo-te como que para tentar que existas além da minha forma de te descrever, não dando conta que mesmo a descrição é um engano. És mais do que a forma que te dou, amor. E gosto tanto de ti. Nunca poderei ver-te, ainda que na minha ingenuidade tentasse fazer um retrato factual. Agora que penso em ti, não me lembro se tens bigode. Tens bigode?
Estou aqui ao teu lado, passarinho. Que te aconteceu com a memória?
Sabes que tenho má memória visual…que confusão me faz não saber se tens bigode. Ouves as rãs? Voltaram. Com os grilos. Porque será que este ano as rãs se sobrepõem aos grilos? Nada à volta mudou, os sons são os mesmos. Perco-me pensando no que sou, e se os grilos serão os mesmos e apenas eu terei mudado. Quem sou eu nesta nova forma? Quero tanto que me digas, e no entanto peço-te silêncio. Poderás dizer-me quem sou em silêncio?
Sabes que isso será impossível, conhecemo-nos um ao outro nas formas que assumimos. Continuas a andar com o papel do bolo. Só não sei o que te deu para comeres esse queijo com papel de propósito. Que comportamentos estranhos tens.
Queria sentir-me…e cala-te, amor, porque me apagas com as tuas palavras. Porque não me dás o teu silêncio? Mas aquele silêncio presente, como quando te concentras a ouvir os grilos.
Entende, passarinho. Gosto de ti e por isso te aconselho. Tira-te quando vais para a rua, como tiras os sapatos quando entras em casa. E se não o fazes devias fazer. Cada coisa no seu lugar, passarinhos para um lado e humanos para o outro. Imagina-te, com as penas todas sujas de palavras. E o humano cheio desse passarinho, que poderão pensar? Até a frase é esquisita, quanto mais a realidade que representa.
Ouve as rãs que te dou. Vou-te dando os vários animais, na esperança que me entendas. Arranjei esta bem alto, só para ti. Não andarás um pouco surdo? Compreendes agora porque se sobreporão elas este ano, esta rã fala altíssimo. Mas não a tomes como realidade, é um efeito de som. Na verdade, um duplo engano, nem de uma reprodução se trata. Não fiques triste, meu bicho. Porque eu te prometo, do fundo do coração que te prometo. Apesar de ser um efeito, esta rã existe mesmo.
Não sei. Talvez por associares directamente uma realidade a um texto. Por achares que compreendes, ou mesmo que sabes.
Estou tão cansada hoje, que preciso de descrições. Que inveja tenho daquele bebé. É tudo ainda para ser, e não falo apenas na possibilidade de ser futebolista, ou gestor, ou bailarino, ou cantor, ou. Falo de ser. Descrevo-te como que para tentar que existas além da minha forma de te descrever, não dando conta que mesmo a descrição é um engano. És mais do que a forma que te dou, amor. E gosto tanto de ti. Nunca poderei ver-te, ainda que na minha ingenuidade tentasse fazer um retrato factual. Agora que penso em ti, não me lembro se tens bigode. Tens bigode?
Estou aqui ao teu lado, passarinho. Que te aconteceu com a memória?
Sabes que tenho má memória visual…que confusão me faz não saber se tens bigode. Ouves as rãs? Voltaram. Com os grilos. Porque será que este ano as rãs se sobrepõem aos grilos? Nada à volta mudou, os sons são os mesmos. Perco-me pensando no que sou, e se os grilos serão os mesmos e apenas eu terei mudado. Quem sou eu nesta nova forma? Quero tanto que me digas, e no entanto peço-te silêncio. Poderás dizer-me quem sou em silêncio?
Sabes que isso será impossível, conhecemo-nos um ao outro nas formas que assumimos. Continuas a andar com o papel do bolo. Só não sei o que te deu para comeres esse queijo com papel de propósito. Que comportamentos estranhos tens.
Queria sentir-me…e cala-te, amor, porque me apagas com as tuas palavras. Porque não me dás o teu silêncio? Mas aquele silêncio presente, como quando te concentras a ouvir os grilos.
Entende, passarinho. Gosto de ti e por isso te aconselho. Tira-te quando vais para a rua, como tiras os sapatos quando entras em casa. E se não o fazes devias fazer. Cada coisa no seu lugar, passarinhos para um lado e humanos para o outro. Imagina-te, com as penas todas sujas de palavras. E o humano cheio desse passarinho, que poderão pensar? Até a frase é esquisita, quanto mais a realidade que representa.
Ouve as rãs que te dou. Vou-te dando os vários animais, na esperança que me entendas. Arranjei esta bem alto, só para ti. Não andarás um pouco surdo? Compreendes agora porque se sobreporão elas este ano, esta rã fala altíssimo. Mas não a tomes como realidade, é um efeito de som. Na verdade, um duplo engano, nem de uma reprodução se trata. Não fiques triste, meu bicho. Porque eu te prometo, do fundo do coração que te prometo. Apesar de ser um efeito, esta rã existe mesmo.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
E só estou triste hoje porque eu estou cansada
JL - O adulto é sempre solitário?
CL - O adulto é triste e solitário.
JL - E a criança?
CL - A criança…tem a fantasia, solta.
JL - A partir de que momento, de acordo com a escritora, o ser humano vai-se transformando em triste e solitário?
CL - Isso é segredo. Desculpe, eu não vou responder. A qualquer momento da vida, basta um…um choque um pouco inesperado, e isso acontece. Mas eu não sou solitária não, tenho muitos amigos. E só estou triste hoje porque eu estou cansada. De um modo geral eu sou alegre.
Clarice Lispector, em entrevista ao jornalista Júlio Lerner
CL - O adulto é triste e solitário.
JL - E a criança?
CL - A criança…tem a fantasia, solta.
JL - A partir de que momento, de acordo com a escritora, o ser humano vai-se transformando em triste e solitário?
CL - Isso é segredo. Desculpe, eu não vou responder. A qualquer momento da vida, basta um…um choque um pouco inesperado, e isso acontece. Mas eu não sou solitária não, tenho muitos amigos. E só estou triste hoje porque eu estou cansada. De um modo geral eu sou alegre.
Clarice Lispector, em entrevista ao jornalista Júlio Lerner
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Antárctida
Meu querido. Escrevo-te esta carta, para ver se me percebo. E para que valides o que escrevo, que também sou eu. Queria contar-te o que ando a fazer, de algum modo ando a precisar de simplesmente descrever o meu dia, e de partilhar a árvore aqui mesmo junto à janela, e o parque, e o autocarro a passar cheio de gente. Adoro ver as pessoas no autocarro, é uma beleza de gente. Falaram-me entretanto da eco para desmarcar. Porque não será possível algo simples, como o autocarro que passa? E da Dinamarca, nada, nem um sinal. Esteve sol hoje, vesti algo mais fresco. Mas sabes que às vezes tanta leveza perturba-me, esta leveza do sol a brilhar dispersa-me. O frio concentrava-me, ficava aqui feita bloco de gelo, o que às vezes era um perigo, porque assim que surgia o sol eu explodia, ainda que apenas já de noite. Juntei “apenas” e “já”, mas não me soou bem. Que achas?
Continua.
Bom. Apenas já de noite. Esse vulcanismo tão característico trouxe-nos dissabores, mas que hei-de fazer? Experimentei fazer como nos géisers, deixar-me sair assim aos poucos, mas sentia que não era eu em altura nenhuma, entendes? Seria uma coisa chocha, de vez em quando saía um rim, depois um fígado, e sabes que isolados não têm graça nenhuma, e sobretudo deixam de fazer sentido, o sentido está na relação. Não dizes que a união faz a força? Aí está outro significado para a mesma ordem de palavras. São fantásticos aqueles dias em que está frio e sol ao mesmo tempo, de uma inteireza avassaladora. Isto já vai além da descrição a que me propus.
Continua.
De uma inteireza avassaladora. Passei então ali pela lavandaria para pôr o tapete a lavar, e telefonei para a contabilidade para saber dos recibos. Fui depois ver um filme muito curioso, havias de gostar. Um conjunto de personagens que se encontrava na Antárctida, encontraram-se ali no fim do mundo porque acharam que o meio estava vazio. Terminava um deles dizendo que o mundo tinha consciência de si através do nosso reflexo. Achei uma boa imagem e resolvi partilhá-la contigo. Falei-te. Tu nem notavas, mas eu tentava desbobinar a minha vida em cinco minutos, julgo que para mantermos uma qualquer ligação, mesmo contigo que nem sei quem és. Mas ia jurar que andas escondido por aí. Não andaremos todos? E a seguir terminava com uma frase sobre nós, talvez no futuro. O que achas?
Sê mais sucinta. E experimenta virar-te um pouco mais de lado para a câmara. Quando chegares a meio viras-te de frente, para que te vejam bem. Misturas assim o mistério com a transparência. Pode ser? Podes recomeçar.
Meu querido. Escrevo-te esta carta, nem sei bem porquê, nem para quê. Apenas porque tenho de ser por algum lado. Contigo. Talvez na Antárctida.
Continua.
Bom. Apenas já de noite. Esse vulcanismo tão característico trouxe-nos dissabores, mas que hei-de fazer? Experimentei fazer como nos géisers, deixar-me sair assim aos poucos, mas sentia que não era eu em altura nenhuma, entendes? Seria uma coisa chocha, de vez em quando saía um rim, depois um fígado, e sabes que isolados não têm graça nenhuma, e sobretudo deixam de fazer sentido, o sentido está na relação. Não dizes que a união faz a força? Aí está outro significado para a mesma ordem de palavras. São fantásticos aqueles dias em que está frio e sol ao mesmo tempo, de uma inteireza avassaladora. Isto já vai além da descrição a que me propus.
Continua.
De uma inteireza avassaladora. Passei então ali pela lavandaria para pôr o tapete a lavar, e telefonei para a contabilidade para saber dos recibos. Fui depois ver um filme muito curioso, havias de gostar. Um conjunto de personagens que se encontrava na Antárctida, encontraram-se ali no fim do mundo porque acharam que o meio estava vazio. Terminava um deles dizendo que o mundo tinha consciência de si através do nosso reflexo. Achei uma boa imagem e resolvi partilhá-la contigo. Falei-te. Tu nem notavas, mas eu tentava desbobinar a minha vida em cinco minutos, julgo que para mantermos uma qualquer ligação, mesmo contigo que nem sei quem és. Mas ia jurar que andas escondido por aí. Não andaremos todos? E a seguir terminava com uma frase sobre nós, talvez no futuro. O que achas?
Sê mais sucinta. E experimenta virar-te um pouco mais de lado para a câmara. Quando chegares a meio viras-te de frente, para que te vejam bem. Misturas assim o mistério com a transparência. Pode ser? Podes recomeçar.
Meu querido. Escrevo-te esta carta, nem sei bem porquê, nem para quê. Apenas porque tenho de ser por algum lado. Contigo. Talvez na Antárctida.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
A verdade do fumo
Olá.
Bom dia.
Desculpe, é que estava a olhá-lo, e a constatar que estava no meu sonho de 6ª feira passada.
Como?
O que lhe digo. Tenho fraca memória visual, mas quando reencontro alguém, sei-o. Eu estava a fumar um cigarro e estava comigo, também a fumar.
A menina não fuma.
O senhor não sabe nada sobre mim. Não fumo, mas fumava no meu sonho.
Nunca poderia estar no seu sonho, nunca nos vimos.
Lamento desiludi-lo, mas estava. Aceite. Pode aceitar? O verdadeiro amor está na aceitação. Quando aceitamos que não poderemos compreender tudo. Não pode controlar o meu sonho. O meu sonho é meu.
Não tenho amor por si, não a conheço.
No meu sonho tinha. E nunca sentiu amor por desconhecidos? Às vezes estou nesse estado. Queria agarrá-lo.
A mim?!
Não, ao estado. Já não me agarro a pessoas, mas ainda me tento agarrar a estados. Até constatar que são como as pessoas. Fogem-me. Apesar de eu ter desenvolvido esta minha capacidade de entender o que certos gestos, juntamente com certas palavras e certos silêncios, poderão querer dizer. Por exemplo, esse seu jeito com a mão. E esse olhar desviado quando lhe falo em agarrá-lo. Tinha colocado aqui mais uma ou outra descrição sobre si, mas senti, ou pensei, o leitor sabe que por vezes se confundem, que aumentar o pormenor retira a verdade à ideia. Mas não o quero maçar com as verdades, sei que elas podem ser muito maçadoras. Andam às voltas a maçar, a maçar, podes-me trazer um copo de água, gostas desta roupa nova que trago hoje, e depois uma birra, um pequeno drama, só para nós sabermos que existem. Voltando aos estados. Partilhava noutro dia consigo, chamavas-te Rafa no meu sonho, calculo que de Rafael, partilhava consigo a alegria pela beleza do que nos foge. Saiu-me assim, compreenderás? É o mais perto da verdade que me vem à cabeça. Já quis compreender a beleza, mas assim que tento agarrá-la deixa de existir. Aqui um equilíbrio…porque foi a compreensão que me permitiu apreciar a beleza, inclusivamente a de não compreender.
A menina é louca.
Estava louca por ti no sonho, Rafa. Estávamos os dois loucos a partilhar a beleza da vida. Era tão bom, sentíamos os dois a leveza da transitoriedade. Chorávamos, Rafa, tal era a felicidade de sentir que sentias que eu sentia a mesma coisa. O que se pode pedir mais da vida? Éramos transparentes, creio. Não, invisíveis. Ninguém nos via no jardim, só se via o fumo dos cigarros. A Sra. Miralina comentou até comigo que foi notícia o facto de se ver fumo de tabaco sem corpos que o causassem, e bem sabes que as pessoas procuram as causas para as coisas, ainda mais quando metem fogos e fumos e assim. Mal sabiam eles que tudo isso fazia parte do meu sonho. Dei então corpos ao fumo, também eu caí no erro das outras personagens, e quis compreender. E nesse instante, nesse preciso instante, deixei de te amar, e tu a mim.
Bom dia.
Desculpe, é que estava a olhá-lo, e a constatar que estava no meu sonho de 6ª feira passada.
Como?
O que lhe digo. Tenho fraca memória visual, mas quando reencontro alguém, sei-o. Eu estava a fumar um cigarro e estava comigo, também a fumar.
A menina não fuma.
O senhor não sabe nada sobre mim. Não fumo, mas fumava no meu sonho.
Nunca poderia estar no seu sonho, nunca nos vimos.
Lamento desiludi-lo, mas estava. Aceite. Pode aceitar? O verdadeiro amor está na aceitação. Quando aceitamos que não poderemos compreender tudo. Não pode controlar o meu sonho. O meu sonho é meu.
Não tenho amor por si, não a conheço.
No meu sonho tinha. E nunca sentiu amor por desconhecidos? Às vezes estou nesse estado. Queria agarrá-lo.
A mim?!
Não, ao estado. Já não me agarro a pessoas, mas ainda me tento agarrar a estados. Até constatar que são como as pessoas. Fogem-me. Apesar de eu ter desenvolvido esta minha capacidade de entender o que certos gestos, juntamente com certas palavras e certos silêncios, poderão querer dizer. Por exemplo, esse seu jeito com a mão. E esse olhar desviado quando lhe falo em agarrá-lo. Tinha colocado aqui mais uma ou outra descrição sobre si, mas senti, ou pensei, o leitor sabe que por vezes se confundem, que aumentar o pormenor retira a verdade à ideia. Mas não o quero maçar com as verdades, sei que elas podem ser muito maçadoras. Andam às voltas a maçar, a maçar, podes-me trazer um copo de água, gostas desta roupa nova que trago hoje, e depois uma birra, um pequeno drama, só para nós sabermos que existem. Voltando aos estados. Partilhava noutro dia consigo, chamavas-te Rafa no meu sonho, calculo que de Rafael, partilhava consigo a alegria pela beleza do que nos foge. Saiu-me assim, compreenderás? É o mais perto da verdade que me vem à cabeça. Já quis compreender a beleza, mas assim que tento agarrá-la deixa de existir. Aqui um equilíbrio…porque foi a compreensão que me permitiu apreciar a beleza, inclusivamente a de não compreender.
A menina é louca.
Estava louca por ti no sonho, Rafa. Estávamos os dois loucos a partilhar a beleza da vida. Era tão bom, sentíamos os dois a leveza da transitoriedade. Chorávamos, Rafa, tal era a felicidade de sentir que sentias que eu sentia a mesma coisa. O que se pode pedir mais da vida? Éramos transparentes, creio. Não, invisíveis. Ninguém nos via no jardim, só se via o fumo dos cigarros. A Sra. Miralina comentou até comigo que foi notícia o facto de se ver fumo de tabaco sem corpos que o causassem, e bem sabes que as pessoas procuram as causas para as coisas, ainda mais quando metem fogos e fumos e assim. Mal sabiam eles que tudo isso fazia parte do meu sonho. Dei então corpos ao fumo, também eu caí no erro das outras personagens, e quis compreender. E nesse instante, nesse preciso instante, deixei de te amar, e tu a mim.
domingo, 5 de abril de 2009
Traição
Estás aí?
Espera. Tive de te deixar por uns momentos.
Vem comigo ver “o som no cinema”. O que te fez ir-te embora assim, sem dizeres nada, ao fim de tanto tempo de união?
O que sentes quando estou?
Como se uma imagem me perseguisse. Sobrevoa-me. És quem me permite observar-me com tranquilidade na minha agitação.
De que tens medo? Se tiveres medo que eu desapareça deixas de me ver.
Da ilusão. Sabes que tudo isto é uma invenção. Estas várias formas que assumimos. A consciência da ilusão é aterradora. Por isso iludo-me pensando que não tenho consciência dela. Da ilusão.
Iludes-te conscientemente para enganar a consciência da ilusão? Que trapalhona és. E eu serei então mais uma invenção. Que nome tenho?
Não te dou nome, para que existas mantendo a tua essência.
Não será o contrário? Se me deres um nome passarei a existir, pelo menos na tua cabeça. Eu sou a…
Não! Não quero dar-te nome, não quero saber quem és. Assim existes de certeza, ainda que sem nome. Porque se não existisses eu não saberia que estou agora com o meu polegar na boca, e a constatar a forma do meu dedo. Desde pequena que gosto de fazer isto. Imagino o dedo, a partir do que sinto nos lábios. Também faço corações com a língua a bater nas gengivas. Depois ponho o joelho assim, e amo profundamente a marca que lá está, observando-a a mover-se enquanto mexo o joelho. E tu sempre a ver-me. És a única que sabe disto. Não tenho de te explicar porque acabei a fazer corações com a língua, até porque não há razões. Espero que nunca me traias.
Não é nas gengivas que fazes. É nos dentes.
Nos de baixo. Que me perdoe a minha querida amiga, mas não sei o nome. Ficaria aqui tão bem. Espera um pouco, vou procurar no Google. Incisivos centrais. Que fácil era.
Podes colocar-me a trair-te. Podes colocar-me a fazer o que quiseres. Improvisa.
Que dizes? Não te posso manipular. O processo é o contrário. És tu quem observa.
Observo mas não manipulo. E foste tu que me criaste. Enfim, não sei quem terá criado quem. Experimenta dar-me ordens. Mamã dá licença? Desculpem-me, também já fui criança e estas coisas vêm-me à cabeça. Quantos passos?
Dá então dois passos para a esquerda. Dois à formiga para a esquerda.
Já está.
Incrível. Vejo-te dois passos deslocada para a esquerda. Ainda que pequenos, mas visíveis.
Vês? Que te disse? Fazes o que quiseres comigo. Agora vejo-te de perfil.
Tu não tens lugar. És apenas uma presença.
“Presença” é palavra. Não me definas, já que não queres que me perca. Andaria aí a gritar que sou presença, que sou presença. Presente! Diria. Que diz esta? Alguém lhe perguntou alguma coisa? Diriam. Imaginas alguém a compreender isto? Se fosse a ti pensava um pouco antes de escrever. Minha pequenina. E não penses que estás a ficar doida, porque senão a doideira passa a existir também para os outros, o que será um problema, porque tu já estás habituada mas os outros não. Dirão que me inventaste, e que te inventaste, para dares coerência à história, e poderão até não andar longe da verdade, mas não tens de lhes contar os segredos todos. A do coração com a língua, por exemplo. Porque lhes contas?
Eles quem? Apenas tu sabes, juro-te! É segredo nosso. A não ser que tu me traias. E eu nunca te poria a trair-me.
Espera. Tive de te deixar por uns momentos.
Vem comigo ver “o som no cinema”. O que te fez ir-te embora assim, sem dizeres nada, ao fim de tanto tempo de união?
O que sentes quando estou?
Como se uma imagem me perseguisse. Sobrevoa-me. És quem me permite observar-me com tranquilidade na minha agitação.
De que tens medo? Se tiveres medo que eu desapareça deixas de me ver.
Da ilusão. Sabes que tudo isto é uma invenção. Estas várias formas que assumimos. A consciência da ilusão é aterradora. Por isso iludo-me pensando que não tenho consciência dela. Da ilusão.
Iludes-te conscientemente para enganar a consciência da ilusão? Que trapalhona és. E eu serei então mais uma invenção. Que nome tenho?
Não te dou nome, para que existas mantendo a tua essência.
Não será o contrário? Se me deres um nome passarei a existir, pelo menos na tua cabeça. Eu sou a…
Não! Não quero dar-te nome, não quero saber quem és. Assim existes de certeza, ainda que sem nome. Porque se não existisses eu não saberia que estou agora com o meu polegar na boca, e a constatar a forma do meu dedo. Desde pequena que gosto de fazer isto. Imagino o dedo, a partir do que sinto nos lábios. Também faço corações com a língua a bater nas gengivas. Depois ponho o joelho assim, e amo profundamente a marca que lá está, observando-a a mover-se enquanto mexo o joelho. E tu sempre a ver-me. És a única que sabe disto. Não tenho de te explicar porque acabei a fazer corações com a língua, até porque não há razões. Espero que nunca me traias.
Não é nas gengivas que fazes. É nos dentes.
Nos de baixo. Que me perdoe a minha querida amiga, mas não sei o nome. Ficaria aqui tão bem. Espera um pouco, vou procurar no Google. Incisivos centrais. Que fácil era.
Podes colocar-me a trair-te. Podes colocar-me a fazer o que quiseres. Improvisa.
Que dizes? Não te posso manipular. O processo é o contrário. És tu quem observa.
Observo mas não manipulo. E foste tu que me criaste. Enfim, não sei quem terá criado quem. Experimenta dar-me ordens. Mamã dá licença? Desculpem-me, também já fui criança e estas coisas vêm-me à cabeça. Quantos passos?
Dá então dois passos para a esquerda. Dois à formiga para a esquerda.
Já está.
Incrível. Vejo-te dois passos deslocada para a esquerda. Ainda que pequenos, mas visíveis.
Vês? Que te disse? Fazes o que quiseres comigo. Agora vejo-te de perfil.
Tu não tens lugar. És apenas uma presença.
“Presença” é palavra. Não me definas, já que não queres que me perca. Andaria aí a gritar que sou presença, que sou presença. Presente! Diria. Que diz esta? Alguém lhe perguntou alguma coisa? Diriam. Imaginas alguém a compreender isto? Se fosse a ti pensava um pouco antes de escrever. Minha pequenina. E não penses que estás a ficar doida, porque senão a doideira passa a existir também para os outros, o que será um problema, porque tu já estás habituada mas os outros não. Dirão que me inventaste, e que te inventaste, para dares coerência à história, e poderão até não andar longe da verdade, mas não tens de lhes contar os segredos todos. A do coração com a língua, por exemplo. Porque lhes contas?
Eles quem? Apenas tu sabes, juro-te! É segredo nosso. A não ser que tu me traias. E eu nunca te poria a trair-me.
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