A solidão é das piores coisas que existem...
Pois é. É um problema muito actual, a solidão na velhice.
Oh, não, estás enganado, não é só na velhice. É um problema dos novos também.
Como assim?
É verdade. Acho a população jovem adulta muito só. Estabelecem poucas relações, ou muitas mas pouco profundas. O que dá uma sensação de grande solidão. Bom, na generalidade dos casos, claro.
Sim, isso talvez seja verdade.
Precisamos uns dos outros. Não entendo esta tendência actual para negar isso.
Achas que há essa tendência? Bom, a verdade é que tens de gostar o suficiente de ti e de saber estar sozinho. Ou saberes quem és, independentemente dos outros.
Isso não existe.
Como não? Eu sou eu, não dependo de ninguém para ser eu.
Não é verdade. Tu és muitos eus. E não eras ninguém sem os outros, creio. A imagem que tens de ti vai-se formando com os outros, e não como algo à parte. Tu é que entendes como algo à parte, senão dar-te-ia uma sensação insuportável de falta de identidade. É assim, pelo menos no mundo ocidental actual.
Não entendo o que dizes. Eu sou eu, disso tenho a certeza. E não preciso de ninguém que me diga quem sou. Na verdade, pensando bem, não preciso de ninguém. Viveria bem sozinho.
Sorte a tua. Quando fores velho não terás problemas de solidão...
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Sabes, hoje estive a pensar. Esta vida são lutos uns atrás dos outros.
Sim, as pessoas morrem.
Não é só isso.
Como não é só isso?
A vida inteira. Já viste? Fazemos o luto pelos que morrem, pelos que não morrem mas é como se morressem, pelo que fomos, pelos ideais que tinhamos e se esvaziam, pelos lugares que ocupávamos e deixámos de ocupar, pelo que pensávamos que éramos e afinal não somos, pelos nossos sonhos, pelos nossos projectos, pelo que pensávamos que iríamos ser e não fomos e não somos. Dia após dia...
Sim. Mas como querias que fosse? Não fosse assim e continuarias igual ao longo da vida.
Será? Porque é necessário sofrer para crescer? E ficarás melhor e mais adaptado? Ou apenas mais duro, frio, distante?
Um pouco de distância é necessário. Não dizias outro dia que te sentias tão bem, como se sobrevoasses os teus sentimentos? Não conseguirias isso sem experiência. Não mudarias sem experiência.
E porque é que temos de mudar?
Tudo muda. Nós, as nossas relações, ainda que com as mesmas pessoas, o que pensamos sobre nós, os outros e o mundo. Conheces por exemplo algum casal que se mantenha que não tenha evoluido? Que não tenha passado por crises?
Mas PORQUÊ?
Não te lembras do filme? Aquele do Visconti, o Leopardo...Tudo muda, para que possa continuar tudo na mesma.
Sim, as pessoas morrem.
Não é só isso.
Como não é só isso?
A vida inteira. Já viste? Fazemos o luto pelos que morrem, pelos que não morrem mas é como se morressem, pelo que fomos, pelos ideais que tinhamos e se esvaziam, pelos lugares que ocupávamos e deixámos de ocupar, pelo que pensávamos que éramos e afinal não somos, pelos nossos sonhos, pelos nossos projectos, pelo que pensávamos que iríamos ser e não fomos e não somos. Dia após dia...
Sim. Mas como querias que fosse? Não fosse assim e continuarias igual ao longo da vida.
Será? Porque é necessário sofrer para crescer? E ficarás melhor e mais adaptado? Ou apenas mais duro, frio, distante?
Um pouco de distância é necessário. Não dizias outro dia que te sentias tão bem, como se sobrevoasses os teus sentimentos? Não conseguirias isso sem experiência. Não mudarias sem experiência.
E porque é que temos de mudar?
Tudo muda. Nós, as nossas relações, ainda que com as mesmas pessoas, o que pensamos sobre nós, os outros e o mundo. Conheces por exemplo algum casal que se mantenha que não tenha evoluido? Que não tenha passado por crises?
Mas PORQUÊ?
Não te lembras do filme? Aquele do Visconti, o Leopardo...Tudo muda, para que possa continuar tudo na mesma.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Já leste aquele livro, o Segredo?
Já li o suficiente.
O suficiente para quê?
Para me ter posto a pensar que tanta gente se sentiu movida por algo que é dito por psicólogos, psiquiatras, bruxos, astrólogos, etc etc, há tanto tempo, e de repente parece que descobriram algum segredo.
Como assim?
É verdade. Basicamente, as nossas crenças são profecias que tendemos a confirmar. O que sentimos e o que pensamos da vida tem a ver com a interpretação que fazemos dela, é essa interpretação. Se conseguirmos pensar que a nossa vida é positiva e que futuramente atingiremos os nossos objectivos, eles tendem a concretizar-se. Tendemos a confirmar as nossas crenças. Ainda que a realidade, ou a realidade vista por outra pessoa qualquer, pouco tenha a ver com o que vemos. Mas como o que importa é o que nós vemos...Isto em linguagem psicológica. Podemos pôr isto em linguagem de astrólogo, ou de bruxo, mas todos dirão a mesma coisa de outra forma. Energia positiva atrai energia positiva...e aí por diante
Então porque é que este livro causou tanto impacto?
Talvez porque as pessoas sentiram que afinal são todas iguais...e quando vão ao psicólogo não sentem, acham-se diferentes, estranhas, anormais...
E por se sentirem normais acreditam mais? Por ser para o público em geral?
Não, mas se um psicólogo te diz algo parecido, entendes como um processo terapêutico, não como uma filosofia de vida. Talvez. E porque ninguém liga ao que dizem os psicólogos e outros seres estranhos: coisa de doidos. Eles próprios todos doidos.
Hummm. E porque não considerar que foram os psicólogos e outros que tais que não conseguiram chegar a toda esta gente, ao contrário do que conseguiu alguém com um livro?
Sim, também é verdade. Mas espera-se dos técnicos pensamentos ditos "profundos", interpretações mirabolantes, do que pensamos, do que sentimos, do que dizemos, do que não dizemos, dos nossos sonhos, do nosso consciente, do nosso inconsciente. Não se espera o óbvio. A quem mudaria eu a vida se lhe dissesse, em consulta, que se conseguisse pensar de forma positiva tenderia a atrair coisas positivas?
No entanto, a quantidade de pessoas que já me disse que este livro mudou as suas vidas.
Exacto.
Humm. É confuso. Hoje não me levas.
Se calhar não fui suficientemente profunda.
Já li o suficiente.
O suficiente para quê?
Para me ter posto a pensar que tanta gente se sentiu movida por algo que é dito por psicólogos, psiquiatras, bruxos, astrólogos, etc etc, há tanto tempo, e de repente parece que descobriram algum segredo.
Como assim?
É verdade. Basicamente, as nossas crenças são profecias que tendemos a confirmar. O que sentimos e o que pensamos da vida tem a ver com a interpretação que fazemos dela, é essa interpretação. Se conseguirmos pensar que a nossa vida é positiva e que futuramente atingiremos os nossos objectivos, eles tendem a concretizar-se. Tendemos a confirmar as nossas crenças. Ainda que a realidade, ou a realidade vista por outra pessoa qualquer, pouco tenha a ver com o que vemos. Mas como o que importa é o que nós vemos...Isto em linguagem psicológica. Podemos pôr isto em linguagem de astrólogo, ou de bruxo, mas todos dirão a mesma coisa de outra forma. Energia positiva atrai energia positiva...e aí por diante
Então porque é que este livro causou tanto impacto?
Talvez porque as pessoas sentiram que afinal são todas iguais...e quando vão ao psicólogo não sentem, acham-se diferentes, estranhas, anormais...
E por se sentirem normais acreditam mais? Por ser para o público em geral?
Não, mas se um psicólogo te diz algo parecido, entendes como um processo terapêutico, não como uma filosofia de vida. Talvez. E porque ninguém liga ao que dizem os psicólogos e outros seres estranhos: coisa de doidos. Eles próprios todos doidos.
Hummm. E porque não considerar que foram os psicólogos e outros que tais que não conseguiram chegar a toda esta gente, ao contrário do que conseguiu alguém com um livro?
Sim, também é verdade. Mas espera-se dos técnicos pensamentos ditos "profundos", interpretações mirabolantes, do que pensamos, do que sentimos, do que dizemos, do que não dizemos, dos nossos sonhos, do nosso consciente, do nosso inconsciente. Não se espera o óbvio. A quem mudaria eu a vida se lhe dissesse, em consulta, que se conseguisse pensar de forma positiva tenderia a atrair coisas positivas?
No entanto, a quantidade de pessoas que já me disse que este livro mudou as suas vidas.
Exacto.
Humm. É confuso. Hoje não me levas.
Se calhar não fui suficientemente profunda.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
És optimista?
Depende. Em relação ao quê?
Em relação às pessoas.
Sim, pode-se dizer que sim. Sou crente no espírito humano. Mas há algo de paradoxal no que sinto em relação a isso.
Então?
Infelizmente, acho que a grande maioria das pessoas, pelo menos da nossa idade, é egoísta e amorfa.
Que queres dizer com amorfa?
Sentem pouco. Lutam pouco. Ou lutam muito, mas pelas coisas erradas. Dão pouco.
E porque achas que isso acontece?
Hummm, não sei bem. Uma grande insegurança, um grande medo. Medo de dar, medo de sofrer, medo, em geral, de viver. Medo de lutar e de não conseguir. E de se confrontar com isso. Talvez medo de "ser", e de constatarem que são tão pouco.
Não viverão melhor, essas pessoas?
Nos tempos que correm, não tenho dúvidas. Mas morrerão tão acompanhadamente sós...
Depende. Em relação ao quê?
Em relação às pessoas.
Sim, pode-se dizer que sim. Sou crente no espírito humano. Mas há algo de paradoxal no que sinto em relação a isso.
Então?
Infelizmente, acho que a grande maioria das pessoas, pelo menos da nossa idade, é egoísta e amorfa.
Que queres dizer com amorfa?
Sentem pouco. Lutam pouco. Ou lutam muito, mas pelas coisas erradas. Dão pouco.
E porque achas que isso acontece?
Hummm, não sei bem. Uma grande insegurança, um grande medo. Medo de dar, medo de sofrer, medo, em geral, de viver. Medo de lutar e de não conseguir. E de se confrontar com isso. Talvez medo de "ser", e de constatarem que são tão pouco.
Não viverão melhor, essas pessoas?
Nos tempos que correm, não tenho dúvidas. Mas morrerão tão acompanhadamente sós...
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Relações
As relações são mesmo complicadas...
Pois são.
Oh, dizes isso, mas estás tão bem.
Bom, estou bem mas não deixo de saber que são complicadas. Se calhar exactamente por saber...E sabes lá se estou assim tão bem.
Não estás?
Estou. Bem, acho que sim. Tendo em conta o que vejo à minha volta.
Que inveja que tenho de ti. Como é que fazes?
Não sei bem...tens de tolerar, mas não demasiado. Tens de aceitar, mas não tudo. Tens de ser exigente, mas com medida. Tens de ser espontânea, mas não dizer tudo. Intensa, mas sem sufocar. Tens de estar no "nós", mas ser também "tu" sozinha. Tens de olhar com ele no mesmo sentido, mas não para ele. Tens de partilhar, mas não ser chata. Tens de ser generosa, mas nunca te deixares humilhar. Tens de fazê-lo sentir que é óptimo, ver o positivo, sobretudo quando discutes. Deves dar paz, mas não ser panhonha. Deves ser interessante, mas não mais que ele. Deves ser complexa, mas não complicada...
Complexo. Ou complicado, mesmo.
Pois é. Que inveja que tenho de ti.
Pois são.
Oh, dizes isso, mas estás tão bem.
Bom, estou bem mas não deixo de saber que são complicadas. Se calhar exactamente por saber...E sabes lá se estou assim tão bem.
Não estás?
Estou. Bem, acho que sim. Tendo em conta o que vejo à minha volta.
Que inveja que tenho de ti. Como é que fazes?
Não sei bem...tens de tolerar, mas não demasiado. Tens de aceitar, mas não tudo. Tens de ser exigente, mas com medida. Tens de ser espontânea, mas não dizer tudo. Intensa, mas sem sufocar. Tens de estar no "nós", mas ser também "tu" sozinha. Tens de olhar com ele no mesmo sentido, mas não para ele. Tens de partilhar, mas não ser chata. Tens de ser generosa, mas nunca te deixares humilhar. Tens de fazê-lo sentir que é óptimo, ver o positivo, sobretudo quando discutes. Deves dar paz, mas não ser panhonha. Deves ser interessante, mas não mais que ele. Deves ser complexa, mas não complicada...
Complexo. Ou complicado, mesmo.
Pois é. Que inveja que tenho de ti.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Como se sente hoje?
Bem...estranhamente.
Porquê estranhamente?
Porque nada exteriormente mudou muito.
Pois, acontece. Talvez tenha mudado a forma como vê as coisas.
Talvez. Mas desta vez não foi um esforço consciente.
O que mudou na sua forma de as ver?
Bom...vejo talvez como estando distante de mim.
Como assim?
Como se fosse algo que se estivesse a passar a um outro nível. Como se a vida real estivesse num nível mais baixo, para a qual eu olhasse.
Engraçado. Como conseguiu fazer isso?
Não sei. Como lhe digo, não tem sido um esforço consciente. Primeiro passei por uma fase de análise, de interpretação. E hoje...essa análise mantém-se, mas mais distante. Como aqueles sonhos em que nos vemos de fora.
Mas a forma como vê é diferente?
A forma como entendo é a mesma, mas isso não provoca em mim os mesmos sentimentos de ontem, ou de anteontem. Olho simplesmente, sei que faz parte de mim, da minha história mas...eu não sou aquilo.
Bem...estranhamente.
Porquê estranhamente?
Porque nada exteriormente mudou muito.
Pois, acontece. Talvez tenha mudado a forma como vê as coisas.
Talvez. Mas desta vez não foi um esforço consciente.
O que mudou na sua forma de as ver?
Bom...vejo talvez como estando distante de mim.
Como assim?
Como se fosse algo que se estivesse a passar a um outro nível. Como se a vida real estivesse num nível mais baixo, para a qual eu olhasse.
Engraçado. Como conseguiu fazer isso?
Não sei. Como lhe digo, não tem sido um esforço consciente. Primeiro passei por uma fase de análise, de interpretação. E hoje...essa análise mantém-se, mas mais distante. Como aqueles sonhos em que nos vemos de fora.
Mas a forma como vê é diferente?
A forma como entendo é a mesma, mas isso não provoca em mim os mesmos sentimentos de ontem, ou de anteontem. Olho simplesmente, sei que faz parte de mim, da minha história mas...eu não sou aquilo.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Expectativas...
Gostava de não criar tantas expectativas.
Cria muitas expectativas em relação ao quê?
A tudo. Em relação à minha vida...em relação às pessoas, em relação a mim...
Mas ter expectativas também é necessário, faz-nos perseguir objectivos, querer o melhor...
Sim, mas se as expectativas são muito grandes, os resultados deixam-me sempre frustrada.
Sim, se calhar não podem ser demasiado altas, mas será bom ou até possível não ter expectativas nenhumas?
Dizem os estudos que os povos mais felizes são os que têm expectativas de vida menores...mas também já vi alguns que diziam que era bom ter expectativas elevadas, exactamente porque se lutava mais pelo que se queria.
Pois...se calhar o ideal seria ter objectivos e exigências e lutar por elas, mas pensando que o resultado pode não ser o que esperamos. Porque, de facto, muitas vezes esse resultado não depende apenas de nós...
E há quem consiga fazer isso?
...
Cria muitas expectativas em relação ao quê?
A tudo. Em relação à minha vida...em relação às pessoas, em relação a mim...
Mas ter expectativas também é necessário, faz-nos perseguir objectivos, querer o melhor...
Sim, mas se as expectativas são muito grandes, os resultados deixam-me sempre frustrada.
Sim, se calhar não podem ser demasiado altas, mas será bom ou até possível não ter expectativas nenhumas?
Dizem os estudos que os povos mais felizes são os que têm expectativas de vida menores...mas também já vi alguns que diziam que era bom ter expectativas elevadas, exactamente porque se lutava mais pelo que se queria.
Pois...se calhar o ideal seria ter objectivos e exigências e lutar por elas, mas pensando que o resultado pode não ser o que esperamos. Porque, de facto, muitas vezes esse resultado não depende apenas de nós...
E há quem consiga fazer isso?
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