Piano.
Canto.
Pássaro.
Lobo.
Uivar.
Não vale verbos.
Que chata, que interessa essa regra? Uivo.
Estou cansada. Podemos parar? Este jogo.
Também estou cansada, sim. Mas vicia. Encadeiam-se de tal maneira, ficava horas. Ainda bem que resolveste parar.
Não gosto. Ou não gosto nesta altura. Preciso de tranquilidade. Aí está uma diferença.
Em quê?
Em mim. Noutra altura continuaria. Um equilíbrio difícil mas necessário, porque também tem vantagens. O jogo. Leva-me a produzir. A cabeça rodopia, o estômago aperta, a tensão aumenta, até que sai. Não sei se o processo tem necessariamente de ser assim. Porque se tem…
Se tem…
Se tem não quero. Vou mudar de vida. Não tenho nervos de aço.
Oh, e achas possível mudar? Mesmo que não tenhas mais palavras, arranjarás outra forma. De tensão.
Talvez. Mas sentia que havia um caminho diferente. Uma necessidade de paz. Um gosto pelo silêncio. Sem jogos.
Isso não existe.
Uma solidão que também leva a uma tensão, mas de outro tipo, ou talvez de outra forma. Uma mente cheia também, mas não de novelos de palavras. Lá vem o novelo outra vez, mas olha, não me apetece trocar. Um bloqueio produtivo. Nas palavras. Abrir possibilidades, dizem os terapeutas. Confundir. Surpreender. Bloquear para desbloquear. Lá vou eu parar aos mesmos temas, eu bem tento misturá-los.
Não percebo. Porque não consegues ter um discurso lógico?
Bloquear a lógica habitual, dizem. Tenho as minhas dúvidas. O que é certo é que a aprendemos, esta lógica. E por alguma razão ela sobreviveu. Resta saber se é a mais adequada. A das palavras. Porque incrustamos em lógicas não adaptativas? No sentido de não nos fazerem felizes.
Olha Rosa, deixa-me aqui na esquina, escusas de estar a dar a volta para me deixares em casa. Amanhã às 10.30. O de sempre. E cuida-te…!
quinta-feira, 17 de julho de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Táxi! (clique aqui)
Boa tarde.
Boa noite, menina.
É verdade, já é boa noite. É para a rua dos fanqueiros, por favor.
Sim Sra. Porque já é crescida. Vamos aqui por baixo, é mais longo mas apanha menos sinais.
Sim sim, nunca vim por aqui, mas está bem.
Não veio?
Não, quer dizer, nunca fiz este caminho. Não é costume vir para aqui. Por isso seguimos o que achar melhor.
Ah. Que chatice, não é normal este comboio passar a estas horas. Acasos. Sabe menina, temos de aproveitar as coisas quando elas nos aparecem.
Tem razão.
Se lhe aparecer uma oportunidade não a desperdice. Tem é de saber que é ele.
É ele?
O momento.
Tem razão. Bom, mas muitas vezes não sabemos.
Pois olhe, ou sabemos uns quantos anos depois.
Foi o seu caso?
Já lá vão 40 anos…teimosia menina, pura teimosia. E agora olhe.
Então? E não o encontrou mais? Ao momento.
Foi com o autocarro. Não vou pensar mais nisso. Não acha? Se calhar se o fosse ter aproveitado, outros não teriam acontecido.
Bom, então no fundo acha que não estava destinado. Tê-lo aproveitado.
Pois isso não sei. Acho é que tinha sido mais feliz, agora se estava destinado ou não…
Que triste. E não pode recuperá-lo?
Está a ver, não apanhámos sinais nenhuns. Do longe se fez perto. E aquele comboio foi posto ali para nós.
Se não tivesse passado não me tinha contado essa história triste…
Não é triste, senhora. Menina. Por ser menina a vê triste. Mas se a vir, não a desperdice.
Boa noite, menina.
É verdade, já é boa noite. É para a rua dos fanqueiros, por favor.
Sim Sra. Porque já é crescida. Vamos aqui por baixo, é mais longo mas apanha menos sinais.
Sim sim, nunca vim por aqui, mas está bem.
Não veio?
Não, quer dizer, nunca fiz este caminho. Não é costume vir para aqui. Por isso seguimos o que achar melhor.
Ah. Que chatice, não é normal este comboio passar a estas horas. Acasos. Sabe menina, temos de aproveitar as coisas quando elas nos aparecem.
Tem razão.
Se lhe aparecer uma oportunidade não a desperdice. Tem é de saber que é ele.
É ele?
O momento.
Tem razão. Bom, mas muitas vezes não sabemos.
Pois olhe, ou sabemos uns quantos anos depois.
Foi o seu caso?
Já lá vão 40 anos…teimosia menina, pura teimosia. E agora olhe.
Então? E não o encontrou mais? Ao momento.
Foi com o autocarro. Não vou pensar mais nisso. Não acha? Se calhar se o fosse ter aproveitado, outros não teriam acontecido.
Bom, então no fundo acha que não estava destinado. Tê-lo aproveitado.
Pois isso não sei. Acho é que tinha sido mais feliz, agora se estava destinado ou não…
Que triste. E não pode recuperá-lo?
Está a ver, não apanhámos sinais nenhuns. Do longe se fez perto. E aquele comboio foi posto ali para nós.
Se não tivesse passado não me tinha contado essa história triste…
Não é triste, senhora. Menina. Por ser menina a vê triste. Mas se a vir, não a desperdice.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Personalidades
Esta rapariga é cheia de personalidade.
É doida, queres tu dizer.
Que disparate.
O que queres dizer com ter personalidade? Todos temos, não? Um conceito ultrapassado, esse.
Ora, é linguagem do senso comum. Se quiseres podemos começar uma conversa mais profunda. Sobre o eu, ou o facto de termos ou não uma estrutura definida. Mas não era minha intenção neste momento estar a maçar-te com isso.
Podem-se utilizar ideias simples para conceitos complexos. Há quem seja perito. Escusamos de entrar neste jogo. É engraçado, acontece-me tanto…Estão a falar, e vão-me passando coisas pela cabeça, mas resolvo não dizer, não sei porquê. Bom, normalmente ideias esquisitas. Ponho-me a falar com outros não presentes. Ou presentes, mas na minha cabeça.
Como assim?
Tenho consciência de que há várias personagens. É difícil. Contribui para esta minha indecisão. Discutem entre si. Seremos todos assim?
Não sei.
Depois há alturas em que sinto muito claramente. Bom, mas esse é outro campo, o do sentir. Ou não será?
Não sei.
Uma entrega. Vou indo, vou indo. Aí não há indecisão. Um eu uno, se quiseres. Uma lógica diferente. Uma única personagem a sentir. Talvez por isso me sinta tão bem nessa altura. Será possível conciliar?
O quê?
Esses dois lados. E será possível pensar sem diálogo? Que confusão que está esta cabeça. Uma bola de lã com umas pontas, ficou a imagem de outro dia. Quando eu achava que ela se estava a desenrolar, embrulhou-se ainda mais. Gostas da palavra embrulho? Utilizei-a porque dá a ideia de presente. Novidade. Mudança. Ai, pára-me, já viste como estou?
Tu és é doida.
Não, tenho é muita personalidade.
É doida, queres tu dizer.
Que disparate.
O que queres dizer com ter personalidade? Todos temos, não? Um conceito ultrapassado, esse.
Ora, é linguagem do senso comum. Se quiseres podemos começar uma conversa mais profunda. Sobre o eu, ou o facto de termos ou não uma estrutura definida. Mas não era minha intenção neste momento estar a maçar-te com isso.
Podem-se utilizar ideias simples para conceitos complexos. Há quem seja perito. Escusamos de entrar neste jogo. É engraçado, acontece-me tanto…Estão a falar, e vão-me passando coisas pela cabeça, mas resolvo não dizer, não sei porquê. Bom, normalmente ideias esquisitas. Ponho-me a falar com outros não presentes. Ou presentes, mas na minha cabeça.
Como assim?
Tenho consciência de que há várias personagens. É difícil. Contribui para esta minha indecisão. Discutem entre si. Seremos todos assim?
Não sei.
Depois há alturas em que sinto muito claramente. Bom, mas esse é outro campo, o do sentir. Ou não será?
Não sei.
Uma entrega. Vou indo, vou indo. Aí não há indecisão. Um eu uno, se quiseres. Uma lógica diferente. Uma única personagem a sentir. Talvez por isso me sinta tão bem nessa altura. Será possível conciliar?
O quê?
Esses dois lados. E será possível pensar sem diálogo? Que confusão que está esta cabeça. Uma bola de lã com umas pontas, ficou a imagem de outro dia. Quando eu achava que ela se estava a desenrolar, embrulhou-se ainda mais. Gostas da palavra embrulho? Utilizei-a porque dá a ideia de presente. Novidade. Mudança. Ai, pára-me, já viste como estou?
Tu és é doida.
Não, tenho é muita personalidade.
domingo, 29 de junho de 2008
Parabéns
Parabéns. Um beijinho.
Vem cá. Dá-me mesmo.
Dou.
Sabes que estou sempre aqui. Ou aí.
Claro. Das únicas certezas que tenho. Ainda ontem olhava a fotografia. Eu devia ter uns dez anos. De vez em quando dou volta às fotografias. Tento identificar as personagens, uma dificuldade.
Pois é natural. Com o passar dos anos. A pele envelhece.
Uma identidade conhecida e desconhecida ao mesmo tempo. Tu. Eu. Nós. O nós também muda de identidade. Uma integração difícil, do nós antigo com o nós actual. No nosso caso é diferente, só eu vou mudando. E tu, aos meus olhos. Esta nossa memória está sempre a mudar. Espalham-se as fotografias pela mesa. E pelos móveis. E pelas paredes. E pelo chão. Ando a abusar dos “e” nestes textos, mas que hei-de fazer, sai-me assim espontaneamente. Tiques de linguagem que também nos caracterizam. Esta sou eu. Sou mesmo eu?
És tu, és. No fotógrafo lá em baixo.
Sempre a mudar, sempre a mudar. E no entanto os mesmos. Das fotografias. Ontem tive necessidade de tirar umas novas. Há mais de um ano que não tirava. Preciso de me renovar. Não me posso arriscar a ficar sem provas. E se me falha a memória? Que ainda por cima não é fotográfica.
Falha sempre. Mesmo nas fotografias. Sorrisos inventados.
Nesta não, estamos todos distraídos. Por acaso com um ar um pouco triste, mas tranquilo. Que se teria passado?
Era o meu dia de anos.
É verdade.
Dá cá um beijinho.
Dou. Parabéns avô.
Vem cá. Dá-me mesmo.
Dou.
Sabes que estou sempre aqui. Ou aí.
Claro. Das únicas certezas que tenho. Ainda ontem olhava a fotografia. Eu devia ter uns dez anos. De vez em quando dou volta às fotografias. Tento identificar as personagens, uma dificuldade.
Pois é natural. Com o passar dos anos. A pele envelhece.
Uma identidade conhecida e desconhecida ao mesmo tempo. Tu. Eu. Nós. O nós também muda de identidade. Uma integração difícil, do nós antigo com o nós actual. No nosso caso é diferente, só eu vou mudando. E tu, aos meus olhos. Esta nossa memória está sempre a mudar. Espalham-se as fotografias pela mesa. E pelos móveis. E pelas paredes. E pelo chão. Ando a abusar dos “e” nestes textos, mas que hei-de fazer, sai-me assim espontaneamente. Tiques de linguagem que também nos caracterizam. Esta sou eu. Sou mesmo eu?
És tu, és. No fotógrafo lá em baixo.
Sempre a mudar, sempre a mudar. E no entanto os mesmos. Das fotografias. Ontem tive necessidade de tirar umas novas. Há mais de um ano que não tirava. Preciso de me renovar. Não me posso arriscar a ficar sem provas. E se me falha a memória? Que ainda por cima não é fotográfica.
Falha sempre. Mesmo nas fotografias. Sorrisos inventados.
Nesta não, estamos todos distraídos. Por acaso com um ar um pouco triste, mas tranquilo. Que se teria passado?
Era o meu dia de anos.
É verdade.
Dá cá um beijinho.
Dou. Parabéns avô.
terça-feira, 24 de junho de 2008
O botão (clique aqui)
Dá-me a mão.
Espera, fiquei com o papel do bolo na mão. Tenho este hábito.
Tem graça. Eu ando com um botão. Gosto de mexer nele. Sabes porquê?
Porquê?
Estava mesmo a perguntar-te! Se tem algum significado…
Pois isso terá sempre. Mas entendo a necessidade de dar um significado comum a algo que só fazemos nós, ou que achamos que só fazemos nós. Normaliza, dentro da anormalidade. Deve dar segurança. O botão.
Mexo e remexo. Uma agitação quando o perco. E um alívio quando o encontro. Ao botão. Como uma pele em que toco e me descansa. Mais ainda, sentir a minha pele nele, e a minha mão a agarrá-lo. Que tranquilidade. Mas uma ansiedade ao mesmo tempo.
Ansiedade?
Ah claro. Um aperto na barriga. E se uso calças sem bolsos e não o posso ter na minha mão a andar de um lado para o outro como costumo? E se alguém nota que ando com ele no bolso todos os dias? E se o perco? E se deixo de conseguir viver sem ele? O botão.
Pois, o perigo da dependência. Mas todas as relações são de alguma dependência, se intensas. O peso da palavra. Dependência. Faz parte do DSM, um susto fazer parte do DSM. E no entanto, somos dependentes de algumas coisas para viver. De comida, por exemplo. Por falar nisso, aquela massa com atum estava óptima. Digo-te isto porque fiquei com a sensação há bocado de que poderia não ter mais oportunidade de te dizer, e temos de aproveitar aquilo que podemos fazer, na altura em que podemos fazer. Já basta o que basta. Se ficam momentos, que fique esse também na nossa história. E o jardim. Ficou-te também a imagem do jardim? E dos grilos. E dos disparates e de nos rirmos com eles, que como sabes é o que mais gosto de fazer. Rir. Uma dependência equilibrada, dizem, se não queres fazer parte do DSM. E de afecto, também somos dependentes de afecto. E dos próprios hábitos. E de papéis na mão. E de botões. Dão segurança.
Espera, fiquei com o papel do bolo na mão. Tenho este hábito.
Tem graça. Eu ando com um botão. Gosto de mexer nele. Sabes porquê?
Porquê?
Estava mesmo a perguntar-te! Se tem algum significado…
Pois isso terá sempre. Mas entendo a necessidade de dar um significado comum a algo que só fazemos nós, ou que achamos que só fazemos nós. Normaliza, dentro da anormalidade. Deve dar segurança. O botão.
Mexo e remexo. Uma agitação quando o perco. E um alívio quando o encontro. Ao botão. Como uma pele em que toco e me descansa. Mais ainda, sentir a minha pele nele, e a minha mão a agarrá-lo. Que tranquilidade. Mas uma ansiedade ao mesmo tempo.
Ansiedade?
Ah claro. Um aperto na barriga. E se uso calças sem bolsos e não o posso ter na minha mão a andar de um lado para o outro como costumo? E se alguém nota que ando com ele no bolso todos os dias? E se o perco? E se deixo de conseguir viver sem ele? O botão.
Pois, o perigo da dependência. Mas todas as relações são de alguma dependência, se intensas. O peso da palavra. Dependência. Faz parte do DSM, um susto fazer parte do DSM. E no entanto, somos dependentes de algumas coisas para viver. De comida, por exemplo. Por falar nisso, aquela massa com atum estava óptima. Digo-te isto porque fiquei com a sensação há bocado de que poderia não ter mais oportunidade de te dizer, e temos de aproveitar aquilo que podemos fazer, na altura em que podemos fazer. Já basta o que basta. Se ficam momentos, que fique esse também na nossa história. E o jardim. Ficou-te também a imagem do jardim? E dos grilos. E dos disparates e de nos rirmos com eles, que como sabes é o que mais gosto de fazer. Rir. Uma dependência equilibrada, dizem, se não queres fazer parte do DSM. E de afecto, também somos dependentes de afecto. E dos próprios hábitos. E de papéis na mão. E de botões. Dão segurança.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Vidas paralelas
Boa tarde. Que calor.
Pois, calculo. Aqui dentro não se sente nada.
E é bom?
O quê?
Não se sentir nada. Será o trabalho ideal, não sentir o frio nem o calor. Nestes quinze dias andei a pensar num tema para esta sessão.
Que mudança repentina.
E não são todas? Aí está outro tema de que gosto, mas não venho preparada para ele. E já o começámos várias vezes, não sei por que razão nunca o continuamos. Mas há já tempo que uma outra ideia me persegue e ainda não tive oportunidade de a expor aqui.
Diga.
Já reparou que também existimos nos sonhos dos outros?
Como assim?
Nunca pensou nisto? De certeza que apareceu já numa grande quantidade de sonhos de pessoas, e nem sabe. Se calhar nem elas. Quem sabe até em sonhos de pessoas que não conhece.
Humm.
Faz-me uma certa confusão esta ideia, e ao mesmo tempo sinto um certo mistério. Embora, pensando bem, não tenha mistério nenhum. São apenas imagens de nós. Aliás, como são sempre, nas cabeças dos outros e nas nossas. E lá estamos, vivos, como que noutra dimensão, e sem sabermos que estamos. Vivos. Esta incerteza cansa-me, cansa-me…Dias melhores virão, vais ver, vais ver…Que raio de optimismo irracional. Bem sei que também é irracional pensar o contrário.
A verdade é que tudo muda sempre. O tempo não pára.
Pois será, mas é desconcertante. Porque hei-de acreditar que de certeza que algo melhorará se tudo é imprevisível e sempre em mudança? Estão a prever algo imprevisível.
A certeza é a de que as circunstâncias mudam, e as pessoas também. Não que se irá sentir melhor. Mas falava-me dos sonhos.
Desculpe, esta minha cabeça dispersa. A ver se não me esqueço de aqui voltar outro dia. Pois os sonhos. Como fantasmas. Vidas paralelas. Sensação esquisita essa de existir sem saber. E um conforto.
Porquê conforto?
Não sei bem. Talvez porque aí a minha existência não depende de mim. Uma tranquilidade…
Engraçado. Sente-se bem quando perde o controlo. Sobre si.
Isso já é outro tema, Dra., depois sou eu! E esta sessão já vai longa. Demasiado longa.
Pois, calculo. Aqui dentro não se sente nada.
E é bom?
O quê?
Não se sentir nada. Será o trabalho ideal, não sentir o frio nem o calor. Nestes quinze dias andei a pensar num tema para esta sessão.
Que mudança repentina.
E não são todas? Aí está outro tema de que gosto, mas não venho preparada para ele. E já o começámos várias vezes, não sei por que razão nunca o continuamos. Mas há já tempo que uma outra ideia me persegue e ainda não tive oportunidade de a expor aqui.
Diga.
Já reparou que também existimos nos sonhos dos outros?
Como assim?
Nunca pensou nisto? De certeza que apareceu já numa grande quantidade de sonhos de pessoas, e nem sabe. Se calhar nem elas. Quem sabe até em sonhos de pessoas que não conhece.
Humm.
Faz-me uma certa confusão esta ideia, e ao mesmo tempo sinto um certo mistério. Embora, pensando bem, não tenha mistério nenhum. São apenas imagens de nós. Aliás, como são sempre, nas cabeças dos outros e nas nossas. E lá estamos, vivos, como que noutra dimensão, e sem sabermos que estamos. Vivos. Esta incerteza cansa-me, cansa-me…Dias melhores virão, vais ver, vais ver…Que raio de optimismo irracional. Bem sei que também é irracional pensar o contrário.
A verdade é que tudo muda sempre. O tempo não pára.
Pois será, mas é desconcertante. Porque hei-de acreditar que de certeza que algo melhorará se tudo é imprevisível e sempre em mudança? Estão a prever algo imprevisível.
A certeza é a de que as circunstâncias mudam, e as pessoas também. Não que se irá sentir melhor. Mas falava-me dos sonhos.
Desculpe, esta minha cabeça dispersa. A ver se não me esqueço de aqui voltar outro dia. Pois os sonhos. Como fantasmas. Vidas paralelas. Sensação esquisita essa de existir sem saber. E um conforto.
Porquê conforto?
Não sei bem. Talvez porque aí a minha existência não depende de mim. Uma tranquilidade…
Engraçado. Sente-se bem quando perde o controlo. Sobre si.
Isso já é outro tema, Dra., depois sou eu! E esta sessão já vai longa. Demasiado longa.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Foi um jeito?
Ai Sr. Dr, doi-me muito aqui.
Exactamente onde?
Exactamente não sei. Dói-me aqui no peito. Terá sido um jeito? Percorre-me este lado todo.
Humm. E como é a dor?
Uma dor…profunda. Tão profunda que me custa a crer que foi um jeito.
Mas pode ser…às vezes os jeitos causam dores bastante agudas.
Não é aguda. É profunda. É diferente.
Entendo. Fez algum esforço?
Tantos…
Mas algum particular nesta zona?
Isso é mais difícil de saber. Mas talvez. Sem me dar conta. Mas se fiz só passado um tempo é que dei conta da dor. Para não me lembrar…
Pois é natural, dado o tipo de dor. E a mexer-se, dói?
A mexer-me e parada. É constante. Uma dor que mói, uma moinha, uma moinha…
Há algum momento em que não sinta a dor? É importante saber as excepções. Mas isto provavelmente não lhe interessa. Pergunto-me frequentemente se devo dizer e explicar o que estou a fazer ou apenas fazê-lo. Às vezes quando digo perde o efeito. Adiante. Perguntava-lhe das excepções…
Não sei se a dor deixa de existir ou se sou eu.
Que é a Sra? A fazer o quê?
A deixar de existir.
Exactamente onde?
Exactamente não sei. Dói-me aqui no peito. Terá sido um jeito? Percorre-me este lado todo.
Humm. E como é a dor?
Uma dor…profunda. Tão profunda que me custa a crer que foi um jeito.
Mas pode ser…às vezes os jeitos causam dores bastante agudas.
Não é aguda. É profunda. É diferente.
Entendo. Fez algum esforço?
Tantos…
Mas algum particular nesta zona?
Isso é mais difícil de saber. Mas talvez. Sem me dar conta. Mas se fiz só passado um tempo é que dei conta da dor. Para não me lembrar…
Pois é natural, dado o tipo de dor. E a mexer-se, dói?
A mexer-me e parada. É constante. Uma dor que mói, uma moinha, uma moinha…
Há algum momento em que não sinta a dor? É importante saber as excepções. Mas isto provavelmente não lhe interessa. Pergunto-me frequentemente se devo dizer e explicar o que estou a fazer ou apenas fazê-lo. Às vezes quando digo perde o efeito. Adiante. Perguntava-lhe das excepções…
Não sei se a dor deixa de existir ou se sou eu.
Que é a Sra? A fazer o quê?
A deixar de existir.
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